Padronização inédita promete revolucionar avaliação de cirurgias de afirmação de gênero no mundo
Consórcio internacional liderado por pesquisadores do Amsterdam UMC estabelece, pela primeira vez, critérios globais sobre o que, como e quando medir resultados cirúrgicos — lacuna histórica limitava avanços científicos e decisões clínicas

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Em um campo médico marcado por avanços técnicos acelerados, mas também por lacunas metodológicas persistentes, um grupo internacional de pesquisadores acaba de propor uma mudança estrutural: a padronização global dos resultados em cirurgias genitais de afirmação de gênero. O estudo, publicado neste sábado (18), na revista The Lancet (plataforma eClinicalMedicine), apresenta o primeiro consenso internacional sobre instrumentos de medição capazes de tornar comparáveis pesquisas realizadas em diferentes países.
O trabalho integra a segunda fase do projeto GenderCOS e reúne nomes como Matteo Angelini, Philippine J. Roijer e Margriet G. Mullender, vinculados a instituições como o Amsterdam Public Health Institute e universidades na Europa, América do Norte e América do Sul.
A proposta vai além de definir quais resultados devem ser avaliados: ela estabelece, com base em consenso científico, como medi-los e em que momento — um avanço considerado essencial para a medicina baseada em evidências.
“Historicamente, os estudos utilizavam ferramentas diferentes, muitas vezes não validadas, o que impedia comparações confiáveis”, afirma Mullender, autora correspondente do estudo. “Agora temos uma linguagem comum para avaliar resultados clínicos e experiências dos pacientes.”
Um campo em expansão — e fragmentado
Nas últimas décadas, o número de cirurgias de afirmação de gênero cresceu significativamente em todo o mundo. Esse aumento foi acompanhado por maior produção científica, mas sem uniformidade metodológica. Segundo o estudo, mais de 2.000 desfechos diferentes já foram reportados na literatura — e menos da metade utilizava instrumentos de medição definidos.
Essa heterogeneidade dificultava não apenas a comparação entre técnicas cirúrgicas, mas também a formulação de recomendações clínicas confiáveis. “A ausência de padronização era um dos principais gargalos da área”, explica Angelini.
O problema é especialmente crítico em um campo onde decisões clínicas dependem de múltiplos fatores, incluindo resultados funcionais, estéticos e subjetivos — como satisfação e bem-estar.
O que muda com o novo modelo
O estudo identificou inicialmente 380 instrumentos de medição potenciais, dos quais apenas uma fração passou por avaliação rigorosa de qualidade e viabilidade. Ao final, os pesquisadores chegaram a recomendações para 19 dos 20 principais desfechos clínicos, após um processo de consenso envolvendo especialistas de 12 países.
Entre as principais inovações está a incorporação sistemática de indicadores relatados pelos próprios pacientes — os chamados patient-reported outcomes (PROs). Ferramentas como o GENDER-Q passam a ser centrais na avaliação de resultados, refletindo uma mudança de paradigma em direção a uma medicina mais centrada na experiência do indivíduo.
“Não se trata apenas de sucesso cirúrgico técnico, mas de qualidade de vida, identidade e satisfação”, afirma Roijer.
Além disso, o estudo estabelece um cronograma padrão: os resultados devem ser avaliados 12 meses após a cirurgia, com acompanhamento posterior a cada cinco anos.
O processo de validação envolveu mais de 30 especialistas — majoritariamente cirurgiões plásticos e urologistas — com alto nível de experiência clínica e acadêmica. O grau de concordância foi elevado: em média, mais de 80% dos participantes apoiaram as recomendações propostas.

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Esse consenso é visto como um marco em uma área historicamente fragmentada. “Conseguir alinhamento global em um campo tão complexo é um feito raro”, avalia o cirurgião Walter P. Bouman, também autor do estudo.
Impacto científico e social
Especialistas apontam que a padronização pode acelerar significativamente o avanço do conhecimento científico. Com dados comparáveis, será possível realizar metanálises mais robustas, melhorar diretrizes clínicas e aprimorar técnicas cirúrgicas.
O impacto, no entanto, vai além da ciência. Em um contexto de crescente debate público sobre saúde trans, a iniciativa pode contribuir para decisões mais informadas — tanto por profissionais quanto por pacientes.
“A padronização traz transparência e melhora a comunicação entre médicos e pacientes”, afirma Mullender. “Isso é fundamental para escolhas compartilhadas e seguras.”
Lacunas ainda persistem
Apesar dos avanços, o estudo reconhece limitações importantes. Um dos principais desafios é a ausência de instrumentos adequados para medir aspectos complexos, como satisfação com a função sexual após determinadas cirurgias.
Além disso, a implementação global do modelo pode enfrentar obstáculos, especialmente em sistemas de saúde com menos recursos ou infraestrutura limitada para coleta de dados.
Outro ponto crítico é a necessidade de atualização contínua. “Trata-se de um framework dinâmico”, destacam os autores, que deverá evoluir conforme novas evidências surgirem.
Um novo padrão para a medicina
A criação do GenderCOS representa uma tendência mais ampla na medicina contemporânea: a busca por padronização e integração de dados em escala global. Iniciativas semelhantes já transformaram áreas como oncologia e cardiologia.
No caso das cirurgias de afirmação de gênero, o impacto pode ser ainda mais profundo, dada a complexidade e sensibilidade do tema.
“Estamos estabelecendo as bases para uma nova geração de pesquisas”, afirma Angelini. “O objetivo final é simples: garantir que os resultados que realmente importam para os pacientes sejam medidos com rigor científico.”
Se bem-sucedida, a iniciativa pode não apenas elevar o padrão da pesquisa, mas também redefinir a prática clínica em um dos campos mais desafiadores — e humanos — da medicina contemporânea.
Referência
Instrumentos de medição de resultados para os conjuntos de resultados principais em cirurgia de afirmação de gênero genital: o projeto GenderCOS. eClinicalMedicineVol. 95 103907 Publicado em: 18 de abril de 2026. Matteo Angelini, Filipino J. Roijer, Marleen S. Vallinga, Thomas E. Pidgeon, Aline Ceulemans, Alex Bakkere outros. DOI: 10.1016/j.eclinm.2026.103907